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Brasileiras revelam experiências xenofóbicas em viagens ao exterior  

Xenofobia se refere as discriminações que uma pessoa pode sofrer em função de sua origem geográfica, étnica ou linguística.

Por: Júlia Machado

julia-machadof.deoliveira@hotmail.com

03/12/2020

"É o seu estúpido nacionalismo/ Que mais parece ser esnobismo/ Bandeiras e fronteiras não são motivos/ Para semear o racismo ou o fanatismo". Os versos são da canção "Xenofobia" da banda punk chilena "Los Miserables". A composição de 2001 utiliza toda a influência da contracultura punk para questionar o nacionalismo e as discriminações fomentadas sob a desculpa da conservação de um país.

O fenômeno da xenofobia é antigo, e se refere às discriminações que uma pessoa pode sofrer em função de sua origem geográfica, étnica ou linguística. Essa aversão às diferentes culturas pode resultar em exposições, abusos e atos de violência contra estrangeiros. Apesar de ser o século da globalização, a xenofobia acontece com bastante frequência.

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 Infográfico: Júlia Machado

A estudante Karolyna Prá viajou a trabalho para a França em 2013 e mesmo tendo fluência na língua inglesa, encontrou resistência ao se relacionar com os franceses. “Como trabalhei para pessoas muito mais velhas e mais conservadoras, tive dificuldade em desempenhar o meu trabalho porque mesmo sabendo, eles não aceitavam falar comigo em inglês” conta.

Na época, Karolyna era funcionária de uma empresa do setor de petróleo e gás e foi escolhida para fazer o intercâmbio de um mês para conhecer a sede da firma em Marseille. Ela comenta que viajou com bastante expectativa e reconhece que apesar das dificuldades, poderia ter aproveitado mais a viagem.

Em um episódio específico, a estudante conta que um dos funcionários se recusou a falar com ela durante o intervalo do almoço pois achava desrespeitoso que ela não falasse francês. “Quando isso aconteceu eu estava cercada de colegas de trabalho, mas não entendi de imediato o que estava acontecendo. Só me explicaram no fim do expediente”, lembra. 

Passe para ler as legendas e ver a próxima foto. 

De acordo com a pesquisa de 2019 da Global Destination Cities Index, promovida pela empresa Mastercard, o Brasil ocupa a décima sétima posição no top 20 dos mercados de origem dos turistas internacionais. As três cidades que mais recebem brasileiros estão nos Estados Unidos e são: Nova Iorque, Orlando e Miami.

As cidades do país norte-americano, atraem muitos turistas que buscam a diversão dos parques temáticos. A autônoma Alyssandra Fonseca conta que durante a adolescência viajou em uma excursão para os parques em Orlando e em Miami, nos Estados Unidos,  e durante a estadia no país sofreu julgamentos e até mesmo uma situação de assédio sexual. O caso aconteceu em um parque aquático.

 “Viram que nós não éramos (norte) americanas, estávamos falando português”, conta. Como a situação aconteceu em poucos segundos, ela não identificou o autor do ato. Ao longo de toda a viagem Alyssandra percebeu pequenas discriminações em restaurantes e até no hotel em que ficou hospedada, e fala que ao se assumir brasileira notava a associação do país com os estereótipos de “carnaval, samba e futebol”.

Com 16 anos, na época, ela afirma que se decepcionou com a recepção que teve no país “Hoje em dia se eu voltasse lá eu já iria com o pé mais atrás, mais receosa, cautelosa”, diz.

Ouça o áudio e descubra a outra experiência que Alyssandra viveu nos Estados Unidos

Áudio Alyssandra
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Sobre essa aversão aos imigrantes, o professor e cientista social, Guilherme Carvalhido afirma que esse sentimento pode ter vários motivos como causador variando de acordo com o contexto histórico da sociedade que pratica a xenofobia. “Basicamente a população se sente ameaçada pelas pessoas que adentram a cultura, acham que seu modo de vida será ameaçado pelo modo de vida dos estrangeiros”, explica.

Ele também destaca que as migrações promovidas pela lógica globalizada intensificaram os movimentos de xenofobia. “Isso instigou movimentos políticos conservadores de direita, que reforçaram seus discursos de ódio sobre essas pessoas, dizendo que elas tirariam seus empregos”, ressalta.

Esses discursos ultranacionalistas e xenofóbicos têm surgido com maior frequência nos últimos anos. Campanhas eleitorais como a do atual presidente estadunidense Donald Trump e como a do movimento britânico de saída da União Europeia, o Brexit, se apoiaram em valores de patriotismo e segregacionismo. Como o lema da campanha encabeçada pelo britânico e então secretário das relações exteriores, Boris Johnson, deixou bem claro que o sentimento dos países era o de “Let’s take back control”! (vamos retomar o controle, em tradução livre, se referindo ao controle das fronteiras e da economia do Reino Unido).

Assista ao vídeo e conheça um pouco mais sobre o fenômeno da xenofobia

Carvalhido explica que “a população, que muitas vezes se sente ameaçada sobretudo em momentos de crise econômica, tende a concordar com esses argumentos antiglobalização”. Uma das ideias mais repetidas durante as campanhas de Trump e do Brexit era a de retomar o crescimento econômico com foco para a destinação de empregos para a população local.

 

“A crise econômica reduz as possibilidades de trabalhos para o cidadão local. Quando esse trabalhador vê que está sendo substituído pelo estrangeiro que aceita ganhar menos, a população ameaçada critica e entra num modo de acusá-los como responsáveis por aquela situação de crise”, conclui o cientista social.

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