top of page

Quarentena longe de casa

Intercambista conta sobre a experiência de manter o isolamento social em outro país, e fala das dificuldades de viajar para um lugar sem sistema público de saúde.

Não é exagero dizer que muitas pessoas pensam ou pensaram em estudar ou trabalhar no exterior. Os motivos são vários: alguns querem recomeçar a vida, outros querem novas experiências para o currículo. Independente da razão, viver no exterior soa muito atraente para brasileiros que não veem tantas oportunidades no próprio país. De acordo com dados da Associação Brasileira de Agências de Intercâmbio (Belta), no ano de 2019 foram 460 mil estudantes realizando intercâmbio, o que representa um aumento de 27% em relação ao ano anterior.

Por: Junior Almeida

junioralmeidax@outlook.com

03/12/2020

Grafio_Junior.png

Gráfico demonstra o aumento do número de intercâmbios nos últimos três anos. Arte: Na Gringa

A estudante carioca Briza Trubat, de 23 anos, conta que decidiu realizar um intercâmbio para os Estados Unidos para praticar o idioma que estudava na faculdade. “Para mim seria uma ótima experiência passar 24 horas por dia falando inglês”, destaca. Ainda de acordo com a Belta, 70% dos brasileiros que fazem este tipo de viagem buscam aprender ou aperfeiçoar o inglês. Além disso, Briza afirma que o crescimento pessoal, por estar em outro país sozinha seria fundamental para o próprio amadurecimento. “Quando você sai da sua bolha, você tem novas perspectivas. Muda o modo como você enxerga as pessoas e sua vida”, acrescenta.

Briza 2.jpeg

Briza Trubat em passeio pela Times Square, em Nova York. Foto: arquivo pessoal.

Como qualquer pessoa prestes a viajar, Briza passou a se preocupar com questões relacionadas às diferenças culturais. Ao sair do Brasil, um país conhecido por seus cidadãos calorosos e receptivos, a estudante precisaria enfrentar uma nova realidade em um lugar no qual o aperto de mão é o trivial. “Existe um clichê de que o estadunidense é muito distante, frio”, aponta. A advogada Juliana Virtuoso, especialista em direito internacional, corrobora que é necessário ter em mente as questões legais e culturais do país de destino. “Devemos respeitar as leis e costumes do país para qual estamos indo”, pondera.

Com o passar das semanas, o frio da barriga e as diferenças culturais foram ficando cada vez menores. Entretanto, Briza não esperava enfrentar a principal delas: a inexistência de um sistema público de saúde. Em média, estadunidenses podem gastar até US$ 40 mil com diárias de internação em hospitais. “Existia uma piada interna entre os participantes do programa para que evitássemos ficar doente [como se fosse possível], justamente para não ter despesas médicas”, brinca. “A agência de intercâmbio até tinha seguro, mas não queríamos usar”, completa. O que ela não esperava é que poucos meses após chegar nos Estados Unidos, a OMS iria declarar estado de pandemia para a COVID-19.

Briza 1.jpeg

Ao longo da viagem, Briza teve contato com outras nacionalidades. Da esquerda para a direta:

Briza, brasileira, acompanhada de um mexicano, uma francesa e uma argentina. Foto: arquivo pessoal

Ainda que estivesse em outro país, Briza continuava cidadã brasileira, o que significa que a Constituição Brasileira ainda tinha deveres em relação à ela. No papel, a estudante tinha seus direitos garantidos. Na vida real, se sentia desamparada. “Eu estava em um outro país, sem sistema público de saúde e vendo o presidente brasileiro ignorar a pandemia tanto para os que estavam no país quanto para os que estavam fora dele”, pontua. Juliana acrescenta que a Constituição tem o dever de garantir todos os cidadãos em relação aos direitos, inclusive àqueles que estão fora do território. “A soberania do país destino deve ser respeitada, assim como a constituição brasileira. Isso pode gerar um conflito de interesses”, declara.

Mesmo tomando todos os cuidados possíveis para não contrair a COVID-19, Briza acabou contraindo uma amigdalite bacteriana, que foi diagnosticada erroneamente, gerando mais gastos. “A primeira consulta custou 100 dólares, fui em um segundo médico e tive que desembolsar mais 100 dólares e comprar remédios. Eu gastei 300 dólares só com remédios. Quando eu preenchi o formulário do seguro, eu fiquei pensando como tive sorte”, avalia. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), os estadunidenses gastam em média US$ 1,200 com remédios por ano.

“Nossa Constituição garante o acesso à saúde em todo o território nacional, de forma gratuita. No entanto, não podemos exigir que outro país forneça esse atendimento para um brasileiro. Isso ultrapassa os limites legais”, explica Juliana. Ela detalha que o Governo Brasileiro criou um departamento no Itamaraty para dar assistência para os cidadãos que estivessem fora do território nacional durante a pandemia de COVID-19. Juliana destaca que ao ter qualquer problema no exterior de caráter civil, entrar em contato com a embaixada brasileira no país é indispensável. “A embaixada é a extensão territorial do país de origem”, assegura.

Em depoimento em vídeo, Briza compartilha como fez para

matar as saudades do Brasil mesmo tão longe.

Depois do susto, Briza afirma que a experiência do intercâmbio é válida, principalmente para o currículo, mas que não trocaria a vida do Brasil para morar nos EUA ou em qualquer outro país. “Não tem barzinho na esquina tocando pagode”, brinca. “Eu gosto do nosso país, apesar de todos os pesares com a saúde e educação. Eu acredito na ideia de lutar pelo meu país em vez de ir embora”, conclui.

bottom of page